Tudo visto e revisto, parece-me que a década da grande esperança foi, essencialmente, uma década inútil, para não dizer falhada. Mesmo aquilo que parecia fácil de avançar, como o combate às alterações climáticas e uma melhor gestão da energia e dos recursos esgotáveis do planeta, marcou passo ou regrediu mesmo, como ainda agora se viu com o grande fiasco de Copenhaga. E pequenas questões pendentes há décadas, onde o simples bom senso imporia uma solução óbvia - como o conflito israelo-palestiniano - continuaram exactamente no mesmo ponto de intransigência, sem que a comunidade internacional tivesse a determinação de impor uma solução, se necessário, à força. Tanto o clima como o Médio Oriente ilustram, aliás excelentemente, o que são estes tempos de impasse, governados por uma geração de líderes sem categoria e sem visão. Não foi por acaso que a chegada de Obama à Presidência dos Estados Unidos foi saudada pelo mundo inteiro como a vinda de um messias salvador.
De facto, nunca se dirá o suficiente sobre a tragédia que foram os oito anos da presidência Bush e o quanto o mundo, então unipolar, estagnou e regrediu com o maior idiota que a humanidade jamais viu à frente dos seus destinos. Mas, não nos podemos queixar de mais: já é uma sorte que o próprio mundo tenha sobrevivido a oito anos daquele incompetente e dos seus inacreditáveis homens de governo. Mas pagámos todos a factura e ainda continuaremos a pagá-la por muitos e maus anos.
A maior mentira da década foi a da existência de armas de destruição maciça, que justificaram a invasão do Iraque. A mentira grosseira, fabricada conscientemente por Bush e Blair e apadrinhada por dirigentes menores, como Berlusconi, Aznar ou Durão Barroso, custou e ainda custa um alto preço - não apenas no Iraque e no Afeganistão mas em cada cidade ou em cada aeroporto do Ocidente, onde a ameaça sempre presente da Al-Qaeda e do fundamentalismo islâmico tornou a nossa vida de todos os dias infinitamente pior. Em breve, viajar será um pesadelo e a bordo de um avião estaremos todos como prisioneiros. Prisioneiros de Osama Bin Laden, o verdadeiro homem da década - aquele que, infelizmente para o mal, mais mudou a nossa vida. Do fundo da sua gruta nas montanhas da fronteira do Afeganistão com o Paquistão, o homem que Bush jurou apanhar "vivo ou morto" derrotou o Ocidente com a mais eficaz das armas: a do medo. Por causa dele, não apenas viajar se tornou um suplício como tantos outros dos nossos direitos fundamentais, conquistados a longas penas no decurso da história, vão caindo por terra, um por um: hoje vivemos em sociedades policiadas, com cada pormenor das nossas vidas devassado a extremos impensáveis ainda há pouco. E, o que é mais grave, habituámo-nos: habituámo-nos a caminhar nas ruas de Londres com uma câmara a filmar-nos constantemente e onde quer que estejamos, habituámo-nos a ter os nossos telefones escutados, a nossa correspondência controlada e lida, todas as nossas andanças vigiadas ao minuto e ao quilómetro, a nossa vida profissional, financeira e pessoal inteiramente exposta aos olhares de polícias e magistrados que já ninguém controla. Eis no que Osama Bin Laden transformou as nossas democracias. Eis o que custou a mentira do Iraque - que teve prioridade sobre a necessidade evidente de ganhar a guerra no Afeganistão.
Curiosamente, porém, alguma coisa houve que fugiu ao controlo do big brother universal que nos governa: o capitalismo. Uma geração inteira de economistas ditos liberais quis acreditar que a libérrima concorrência era a solução única e planetária para o progresso das nações - de todas as nações. Um dia, quando se escrever com a necessária distância a história da crise financeira nascida nos Estados Unidos em 2008, será difícil acreditar como é que tão poucos conseguiram enganar tantos durante tanto tempo. E como é que tiveram o absoluto despudor de o fazer, sabendo que se arriscavam a enviar milhões de pessoas para o desemprego, a arruinar milhares de empresas com futuro, a roubar biliões de poupanças de uma vida a trabalhadores honestos. Mais difícil ainda será entender como é que, Madoff à parte, uma vez a crise ultrapassada à custa do sacrifício do dinheiro dos impostos de cidadãos inocentes, tudo retomou o seu caminho habitual, com os mesmos responsáveis à frente dos mesmos negócios e com os mesmos métodos e a mesma criminosa ganância a determinarem as regras do jogo.
Esta década sem sentido, sem nada de grandioso, sem estadistas como um Willy Brandt, um Gorbatchov ou um Mandela, reflecte a crise de valores morais, a crise de elites do mundo de hoje. As grandes causas do nosso tempo são a perseguição aos vícios ou prazeres alheios, o governo do politicamente correcto ou a preparação dos países para as histerias colectivas, normalmente cozinhadas por interesses comerciais ocultos (e tivemos vários nesta década, a começar logo pelo bug do milénio, seguido da epidemia das vacas loucas, as armas nucleares e químicas de Saddam Hussein, a paranóia do Antrax, a gripe das aves, e agora, para acabar em beleza, a gripe A - esse extraordinário embuste farmacêutico mundial).
É uma década que não deixa saudades. Nenhum facto verdadeiramente grandioso a marcou. Aqui e ali, e como era inevitável, a ciência avançou - sobretudo no domínio da medicina e das comunicações. Mas o mundo não ficou mais seguro, mais viável ou mais justo. A vida moderna não ficou mais agradável, os princípios éticos dominantes são os impostos por uma maioria imbecilizada, que não lê, não se informa e não reflecte - apenas troca opiniões sem fim e sem responsabilidade alguma na profusão de blogues, redes sociais e revistas de mexericos onde se imaginam a vanguarda de qualquer coisa importantíssima. Se alguma coisa caracteriza o nosso tempo é a legitimação da mediocridade. Esta foi uma década de avanço da mediocridade. Mas talvez a próxima seja uma época de exigência: se não por escolha, talvez por necessidade.
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009

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