Neste dia em que celebramos, ou melhor, deviamos celebrar a nossa independência, pois quase não se dá nenhum valor a este dia, creio que devemos dar palavra aos descendentes da nossa liberdade. Um dia que vivam em Espanha sentirão melhor a força deste dia.
"D. Duarte Pio de Bragança, descendente directo do rei Restaurador do 1 de Dezembro de 1640, queria ver restauradas em Portugal a auto-estima e a capacidade de dedicação e serviço generoso.
Correio da Manhã – O que considera, hoje, mais importante restaurar em Portugal?
D. Duarte Pio – A auto-estima dos portugueses, que está muito por baixo. O raciocínio lógico que tanto caracterizava as nossas gentes, mas foi abandonado pelo sistema escolar completamente desadaptado das necessidades da juventude. E a capacidade de dedicação e serviço. Temos de perceber que, se não servirmos a nossa pátria com generosidade, perderemos o que melhor nos defende. Não podemos entregar o nosso destino aos estrangeiros.
– Pensa que Portugal está em perigo com a União Europeia?
– Sim, e sob vários aspectos. O primeiro é haver dentro da UE quem, traindo os objectivos comunitários iniciais de uma confederação de estados europeus, queira avançar para uma república federal europeia, em que cada estado-nação passa a ser representado por um governador igual aos que existem nos EUA ou no Brasil. Este desígnio federativo é contrário aos interesses de Portugal, mas há muitos que o defendem. Tal como há outros que dizem que Portugal devia fazer parte da Espanha e agem, de facto, nesse sentido.
– Esse perigo ameaça igualmente repúblicas e monarquias na UE?
– Não, só o vejo nas repúblicas. A grande angústia que sentimos em Portugal em relação à nossa independência é um problema que não existe em países como a Holanda, a Bélgica, a Dinamarca, nem mesmo no Luxemburgo, onde no topo do estado estão os meus primos grão--duques e 25% da população activa são portugueses. Pelo contrário, em Itália sentem-se riscos graves para a unidade nacional.
– Que vantagem há em ter um rei?
– Na Monarquia, quem está no topo das instituições nacionais é um juiz independente que nunca é suspeito de tomar atitudes a favor ou contra qualquer dos partidos políticos que disputam o voto e governam.
– Mas também há escândalos como o caso Loockeed na Holanda…
– Só que a reacção das pessoas é diferente. Os holandeses apoiaram a rainha que, coitada dela, tinha de aturar um marido que se metia em confusões. Mas foi diferente de quando há um ministro que recebe comissões pelos aviões que compra.
"HÁ INTERESSE EM QUE A JUSTIÇA NÃO FUNCIONE"
CM – A Justiça preocupa-o?
D. Duarte Pio – Sim, porque as leis que regem a Justiça estão muito mal feitas e favorecem sempre o infractor. Além disto é claro que a Justiça não tem meios. Há juízes que têm de ir trabalhar para os seus automóveis por falta de espaço próprio nos tribunais. Assim é difícil ter a Justiça a funcionar. E há quem tenha interesse em que a Justiça não funcione.
– E como vê a situação no ensino?
– Aí o que mais me preocupa é o total abandono do raciocínio lógico que devia estar na base de todo o ensino. Não se aprende a escrever com lógica, inteligência, criatividade e graça. E, quando não se escreve bem, o natural é que também não se pense bem. Temo que persista aquela péssima ideia de que as pessoas não precisam de pensar porque os governantes pensam por elas.
– Vê essas carências nos estudos dos seus filhos?
– Na verdade, não sou capaz de acompanhar o estudo do português dos meus filhos, de tão estranho ele se tornou. Tenho esperança na nova ministra da Educação que é uma pessoa inteligente e culta. O grande problema é que hoje, como no tempo do dr. Salazar, qualquer pessoa que critique é vista como um incómodo.
"CONJURADOS PENSARAM CRIAR UMA REPÚBLICA"
CM – Como vê o 1.º de Dezembro?
D. Duarte Pio – Foi um acto de afirmação do povo português, farto de ser governado por estrangeiros. Quando o primeiro rei Filipe tomou a coroa, disse que os dois países se mantinham independentes. Rapidamente se viu que isso era falso e que Portugal estava ao serviço da estratégia de Espanha. Foi sempre assim. Bascos, catalães, galegos e andaluzes queixam-se também do centralismo totalitário castelhano, de Madrid, em relação a toda a Península Ibérica.
– Porque hesitou o duque?
– Ele mostrou grande prudência porque sabia que, no caso de falhar, seria decapitado. E à sua família aconteceria o mesmo. Havia também o problema de, se a revolução nacional falhasse, demorar muito tempo até ser possível fazer outra. Mas assumiu todas as responsabilidades. Era descendente directo de D. Afonso Henriques por via masculina e com ele se retomou a sucessão dinástica.
– Era sucessor incontestável?
– Os conjurados pensaram também em criar uma república em Portugal como a de Veneza ou a holandesa, porque era um regime em voga como se viu com Cromwell. Consideraram, porém, que a república não teria força suficiente para resistir a Espanha.
DEFENESTRAÇÃO NA RIBEIRA
O principal acto dos conjurados na Restauração, a 1 de Dezembro de 1640, foi a morte e a defenestração de Miguel Vasconcelos (1590--1640), um nobre português que desempenhava funções de secretário de Estado da duquesa de Mântua, vice-rainha de Portugal, na dependência do rei de Espanha. O seu lançamento por uma janela do Paço da Ribeira foi o sinal de que a revolução nacional era vencedora. Como se sabe, não foi tarefa fácil. Os conjurados demoraram a descobri-lo dentro de um grande armário, onde se refugiara com uma arma. Não lhe valeu de nada. Foi crivado de balas antes de ser defenestrado."
João Vaz in Correio da Manhã


Sem comentários:
Enviar um comentário